Dois anos após as enchentes que devastaram municípios do litoral norte gaúcho, moradores ainda aguardam reconstrução de casas e infraestrutura. O ritmo das obras é mais lento do que o prometido.
Quando a água baixou, em maio de 2024, Dona Iracema Flores pensou que o pior havia passado. Moradora de Muçum há 54 anos, ela viu sua casa ser arrastada pela correnteza do Rio Taquari. Dois anos depois, ainda mora num contêiner adaptado no fundo do terreno da filha, esperando a liberação do financiamento para reconstruir.
"Disseram que ia ser rápido. Que o governo ia ajudar. Mas a burocracia não acabou mais", diz ela, mostrando uma pilha de documentos que precisam ser reapresentados pela terceira vez.
O caso de Iracema não é isolado. Segundo levantamento do Ministério das Cidades divulgado em abril de 2026, apenas 34% das 12.800 famílias cadastradas no programa de reconstrução habitacional pós-enchentes no Rio Grande do Sul receberam algum tipo de apoio concreto — seja financiamento aprovado, seja unidade habitacional entregue.
O secretário estadual de Habitação, Marcos Dornelles, reconhece o atraso mas atribui parte do problema à complexidade fundiária das áreas afetadas. "Muitos terrenos não têm regularização. Não dá para construir sem resolver isso antes", afirma. "Estamos trabalhando, mas é um processo que leva tempo."
Para as comunidades ribeirinhas, o tempo pesa de forma diferente. Em Roca Sales, onde 70% das casas foram danificadas ou destruídas, o prefeito Gilberto Schmitz estima que a população permanente do município caiu 18% desde as enchentes. "As pessoas foram embora e não voltaram. Quem ficou são os mais velhos, que não têm para onde ir."
O impacto econômico também é visível. Pequenos comércios que dependiam do turismo de verão no litoral norte ainda não recuperaram o movimento. Hotéis e pousadas que foram reformados enfrentam dificuldade para atrair visitantes — a memória das enchentes ainda afasta turistas.
Organizações da sociedade civil, como a Cáritas Brasileira e o Movimento dos Atingidos por Barragens, cobram mais transparência no uso dos recursos federais destinados à reconstrução. Segundo levantamento da Transparência Internacional, R$ 2,1 bilhões dos R$ 8,7 bilhões comprometidos pelo governo federal ainda não tinham destino definido em março de 2026.
"O dinheiro existe. O que falta é gestão e vontade política de desburocratizar", diz a coordenadora regional da Cáritas, Sônia Mello. "Enquanto isso, as pessoas continuam esperando."