Agronegócio

Soja gaúcha bate recorde de produtividade, mas preço baixo preocupa produtores

Soja gaúcha bate recorde de produtividade, mas preço baixo preocupa produtores

A safra de soja 2025/2026 no Rio Grande do Sul deve registrar a maior produtividade média da história do estado, com 3,8 toneladas por hectare. Mas a queda no preço internacional da commodity preocupa produtores que investiram pesado na lavoura.

A notícia é boa e ruim ao mesmo tempo. O Rio Grande do Sul vai colher, nesta safra, a maior quantidade de soja por hectare já registrada no estado. A tecnologia funcionou: sementes mais resistentes, manejo mais preciso, clima que cooperou na hora certa. O problema está no mercado.

O preço da soja na Bolsa de Chicago caiu 22% entre outubro de 2025 e março de 2026, pressionado pela supersafra brasileira e pela retomada da produção argentina. Na prática, o produtor gaúcho vai colher mais, mas pode ganhar menos do que no ano passado.

"Eu plantei 400 hectares. Fiz tudo certo. E agora vou receber menos por saca do que o custo de produção", diz o agricultor Leandro Hartmann, de Cruz Alta. "Isso não é sustentável."

A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) estima que cerca de 40% dos produtores de soja do estado vão fechar a safra no vermelho ou no zero a zero. Os mais vulneráveis são os pequenos e médios produtores que tomaram crédito para expandir a área plantada ou investir em tecnologia.

O cenário levanta questões sobre o modelo de desenvolvimento do agronegócio gaúcho. Nos últimos dez anos, a área plantada com soja no estado cresceu 35%, impulsionada por financiamentos facilitados e expectativa de preços altos. Agora, com a superprodução global, o modelo está sendo testado.

"O agronegócio brasileiro virou vítima do seu próprio sucesso", analisa o economista agrícola Pedro Ramos, da UFRGS. "Quando todo mundo produz mais, o preço cai. E aí quem tem custo mais alto sofre mais."

A Embrapa e o governo estadual anunciaram um programa de diversificação de culturas para reduzir a dependência da soja. A ideia é incentivar o plantio de feijão, milho e culturas de inverno, que têm mercado mais estável. Mas a mudança de hábito do produtor é lenta — e o crédito disponível ainda favorece a soja.

Para a próxima safra, a previsão é de redução de 8% na área plantada no estado, à medida que produtores tentam ajustar a produção à realidade do mercado.

Fábio Scherer
Fábio Scherer
Repórter de Economia

Economista e jornalista. Cobre agronegócio, mercado financeiro e desenvolvimento regional do Sul do Brasil. Colaborador do Correio Gaúcho desde 2020.